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Temporada 2 — Episódio 16 de 26

O episódio #16 fala sobre identidade, sobre conhecer seus universos particulares. Além dos textos, aproveite também as notas autorais e as pequenas biografias para conhecer e interagir com esse pessoal talentoso.

Abaixo de cada faísca, você encontra uma ferramenta para atribuir nota ao que leu. Ao final da temporada de seis meses, os textos mais bem avaliados serão cotados à tradução para o inglês — we also want to spark abroad! Pedimos que você avalie as faíscas recebidas — além de ajudar na classificação, a gente sabe que não está trovejando para o vazio. Boa tempestade de histórias pra você!

Ah, sabia que hoje é aniversário da super-humana mafagáfica, a Jana Bianchi? Além de dar os parabéns, você pode deixá-la feliz conferindo o edital para a nossa Terceira Temporada! Detalhes aqui

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Eva

Ravenna Veiga

 

Eu sou a serpente que te habita, que permanece ali, calada, enquanto você prossegue sua rotina no escritório. Nasci em tempos imemoriais e me instalei em você, em seu âmago. Vejo o mundo por seus olhos, me alimento por sua boca. Você é minha hospedeira, sinto o gosto da sua saliva. Sou aquele filete transparente que escorre pelo canto de seus lábios após o sono tranquilo, sou a lágrima que serpenteia em sua face; eu me espreito pelo seu ventre, eu encho seus pulmões de perfume quando as flores da primavera ou as fragrâncias mais caras de um shopping center transitam volúveis pelo ar. 

Quando eu te corromper, já não vai haver qualquer concessão.

O pão de cada dia se tornará indigesto e os ponteiros do relógio correrão tão devagar que suas horas durarão eternidades. A face estéril do caixa eletrônico te provocará náuseas intensas, e qualquer adorno derrubará seu pescoço frágil, fazendo com que seus olhos só possam encarar o chão. Sua pele se tornará fria, fria como minha pele de réptil, e no calor de um metrô lotado, as gotas geladas escorrerão na forma de cobras pequeninas por suas têmporas. Cada cheiro de seu corpo se tornará insustentável, indomável, e você, menina, conhecerá seu suor e o cheiro avinagrado de sua virilha, conhecerá o toque das roupas umedecidas desfeitas em água, desnudando sua pele.

Seu corpo já me dá os primeiros sintomas de derrota. Aqueles que passam pelos corredores ascéticos de sua vida não desconfiam que por debaixo da calça de alfaiataria irrompe alguma coisa. Alguma coisa instigada pelos seus olhos atentos que me fazem ver o mundo. Eu já te possuí há muito tempo e agora me manifesto. 

Você escova seu cabelo no banheiro da empresa enquanto sibilo em seus ouvidos, seus seios estão bem marcados na camisa branca. Sua pele tem viço e seus olhos estão brilhando, pequenas vicissitudes em uma mulher opaca. Ao se olhar nos olhos, você se lembra de como nos conhecemos, ainda na barriga da sua mãe. Foi quando penetrei seu corpo, invadindo-o pelo ventre sem qualquer piedade de nutrir de vida um punhado insosso de células. Eu, a serpente das serpentes, te fiz gente, te fiz mulher, e assim te faço agora que você notou o banheiro vazio e se trancou na cabine, decidida a perecer. Te percebo rendida, sentada na privada, soltando o cinto de sua calça e alisando com os dedos seu pescoço pálido e perfumado. Em sua memória, seu chefe barbudo roça a boca nas suas orelhas, te pinica e te enreda em desejo e asco. O cinto dança em suas mãos, serpenteando enquanto por detrás da sua testa franzida mora a memória fictícia dos dedos dele, seu rabo bem sentado naquelas pernas gordas e um devir desejo que se parece com a rotineira humilhação.

Seus dedos abandonam o couro e raspam a face mais úmida de si. Chegou a hora do parto, chegou a hora do meu parto, e uma vez que semelhante atrocidade for feita, que semelhante besta nascer, não haverá mais retorno. Quando a Empresa for profanada, não haverá mais qualquer sagrado nesse mundo que te habita. Você checou se não há mais ninguém ali, você ocupou a última cabine do banheiro-em-série e abriu as pernas. Eu rompo a casca do ovo que me aprisiona e começo a escorrer por suas pernas. Seus dedos circulam para lá e para cá, me acariciando, e enfim dou meu bote, crescendo pelo centro de sua barriga e escapando por seus lábios. Eu nasci.

Você retorna, tendo gasto exatamente meia hora do seu tempo de serviço. Suas faces estão coradas, contrastantes com a multidão de faces pálidas por detrás das telas de computador. Já não é mais possível estar aqui, mas você sabe, é preciso continuar. Você se senta em sua cadeira de rodinhas e eu, de modo não civilizado, te consolo, deixando escorrer de seus olhos uma pequenina serpente cristalina; em algo, em alguma coisa te lembro que nesse peito há vida.

Eva, eu nasci do abismo, eu te atirei num caminho sem volta.

 

Ravenna Veiga

Lésbica, canceriana, nascida em Santos, cursou ciências sociais e depois artes do corpo. Já quis ser freira, já militou no movimento estudantil e atualmente só faz arte mesmo. Também não gosta de escrever minibio.

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A Dama no Bosque

Felipe Cavalcante
 

 

A Dama no Bosque vivia no coração da floresta. Diziam que ela era uma feiticeira poderosa e terrível como o amanhecer, viva por mais de cem primaveras e com o coração de pedra. Diziam que ela tinha sangue de fada correndo pelas veias, que andava nua entre as árvores e que sua voz era o canto de um sabiá. Diziam que ela era uma alma da floresta, que tinha uma pele lisa e macia de madeira, que os cabelos eram as folhas verdes do seu lar e que suas lágrimas eram o orvalho da manhã. 

Diziam que ela era sábia. Diziam que carregava um poder milagroso, de magia velha vinda da terra, do chão, do ar. Todos sabiam que ela era antiga, misteriosa, e que quase ninguém se atreveria a vê-la. 

Aquela criança decidiu fazer isso. Aos olhos de todos ao seu redor, era só um menino. Um garoto magricela que vivia no vilarejo local.

Ele não tinha pais, não tinha irmãos; não tinha nem um nome: os aldeões não haviam se importado em imaginar um quando viram o que parecia ser um garoto, uma coisinha magricela como um gato abandonado, arrastando-se perto de um barril vazio. Eles passaram a cuidar da criança, e com isso o que se quer dizer é que lhe pediam favores em troca de algumas moedas de cobre ou de um prato de comida. Carrega esse saco de farinha pra mim, garoto! Ei, menino, leva esta trouxa de roupa pra mim. Vem varrer meu quintal, menino. Não reclama, ou te acerto com essa vara!

Foi numa noite particularmente ruim (quando a dona da taverna deu-lhe com uma colher de pau nos dedos para ensinar-lhe a tomar cuidado com os pratos enquanto os lavava e depois deu mais alguns golpes dizendo para não ficar chorando como se fosse uma menina) que decidiu vê-la, pois tinha esperança e um desejo. Decidiu, pois havia algo a mais pesando em seu coração. 

Ninguém se atreveria a atravessar aquela floresta em busca da Dama no Bosque.

Todos sabiam que só poderiam achá-la caso se aventurassem por entre as árvores à noite.

Aquela criança engoliu o medo e foi.

Seguiu as estrelas até a beira da floresta. Trazia um punhado de fósforos firmes na mão direita, prontos para iluminar o caminho.

Quando riscou o primeiro fósforo e o ergueu alto na mão, caminhou através dos troncos enormes e escuros. Ouvia vozes na escuridão: elas imploravam para que ficasse, para que brincasse e risse com elas para sempre. Mas seguiu firme.

Quando riscou o segundo fósforo, descobriu que teria de atravessar um pequeno riacho, saltando de pedra em pedra. O riacho parecia querer lavar suas lembranças e suas memórias, levando tudo com as águas, mas conseguiu ultrapassá-lo.

Quando riscou o terceiro fósforo, estava subindo em uma inclinação do terreno. Sentia-se exausto, mas continuou firme.

Quando riscou o quarto e último fósforo, este se quebrou, inútil, e assim teve de seguir na escuridão. Seus passos ecoavam nas trevas. Sentia como se estivesse dentro do coração do nada, do vazio... De repente, ouviu um som: era como uma música, mas também poderia ser o barulho da água correndo ou do vento soprando.

Estava no meio da floresta. As árvores circundavam uma clareira, e, bem no meio dela, erguia-se um círculo de pedras. 

A lua cheia erguia-se no meio do céu, banhando de luz prateada o círculo de pedras e também uma figura alta. Ela usava uma máscara de madeira, feita de lascas de árvore, raízes e folhas. Os cabelos negros como as asas de um corvo caíam pelos ombros, e onde o longo vestido branco drapejava e a comprida saia esfarrapava, revelavam-se pés descalços.

Aproximou-se. O coração com medo, pois apenas um tolo não estaria com medo. Mas ainda assim se aproximou. 

A Dama no Bosque observou seu rosto com olhos brilhantes como o luar.  

— Posso ter o seu nome? — perguntou a Dama.

A criança sabia onde aquilo ia dar. Talvez, para outra pessoa, fosse uma simples pergunta, uma coisa idiota. Mas então pensou no quanto odiava o próprio nome, aquele dado por seus pais antes de irem embora. Pensou em como aquilo não era ele. E no quanto queria mudar. Então disse seu nome.

A Dama no Bosque sorriu:

— Nós dois sabemos que esse não é o seu nome, pequenina.

E o coração daquela criança se expandiu, batendo mais forte dentro do peito, como um pássaro azul que se liberta de uma gaiola. Aquela pequena esperança que carregava em seu íntimo se espalhando, uma fagulha de fósforo tornando-se fogueira dentro de si. 

— Levarei este nome — a Dama disse. — E você descobrirá seu próprio nome, o seu verdadeiro nome.

A Dama no Bosque ergueu os braços. Um zunido atravessou o ar, como se as forças do vento circundassem aquele local. Tudo parecia girar em alta velocidade. A lua cruzava os céus assim como um navio cruza o oceano escuro. As estrelas pareceram tremeluzir e despencar. A noite rodopiava em velocidade alucinante. 

Ela piscou por um rápido momento. E então estava sozinha novamente. O céu se acinzentava, um pássaro cantava empoleirado no galho de uma árvore.

Em seu coração, sabia, sempre soubera e sempre saberia quem era de verdade. E, em seu íntimo, sentia brotar o nome, seu nome de verdade. Um nome que seria seu, e não um que as outras pessoas tinham lhe dado. 

A garota suspirou, olhando para a imensidão do céu e para a folhagem das árvores sendo soprada pela brisa da manhã. O canto do pássaro somou-se ao gorjear de vários outros.

Não precisou de fósforos para achar o caminho de volta, o Sol já se erguia no horizonte.

 

Felipe Cavalcante

Felipe Cavalcante é um escritor novato de Manaus/AM. Fã de Neil Gaiman, Stephen King, Edgar Allan Poe e G.R.R. Martin, mas também de Astrid Cabral, Felipe Castilho e Jan Santos. É redator no site Co-Op Geeks, onde escreve sobre filmes, séries e livros, especialmente com representatividade LGBTQIA+. Sendo secretamente um cultista da Ordem Esotérica de Dagon e um hobbit por excelência de hábitos, acredita que haja milhares de todos nós detrás das árvores, mas poucos com lagos no coração. 

Twitter: @Inutil_Idade
Site: coopgeeks.com.br


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