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Temporada 5 — Episódio 03 de 26

No Episódio #3, vamos mergulhar nos clássicos. Aquelas obras que mesmo quem não leu já tá careca de ouvir falar e que inspiram, ao longo de gerações, ainda mais artistas e histórias. E por que não faíscas?

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Imersão

Danilo Heitor


 

Ursula abriu os olhos no susto e observou os arredores, o gosto da água salgada na garganta, uma sensação de quase afogamento. Em volta dela, como sempre, os destroços do Pequod e os corpos de todos os outros. Levantou devagar da posição confortável em que sempre se sentava e esperou alguns segundos até que a simulação terminasse. Enfiou a mão no bolso e percebeu que aquela era sua última ficha.

Abriu a porta da pequena saleta no fundo da biblioteca, e já era quase noite. Tinha passado o fim de semana ali, como fazia havia muitos anos, desde pequena percorrendo as prateleiras, escolhendo contos, aventuras, fantasias. Pulava sempre os romances — pra que gastar ficha com isso? — e, por muito tempo, acreditou não haver uma história ali que ela não conseguisse mudar. 

Ainda criança, evitou que a vovó fosse comida pelo lobo, não deu bola quando viu o coelho, enfiou a maçã goela abaixo da bruxa e não deixou o lobo, outra vez esse maldito, chegar nem perto da primeira casa. Adolescente, começou indo ao baile sem perder o sapatinho, quebrou a roca de uma só pancada e aí percebeu que isso de princesa não era muito com ela. 

Resolveu ir às estrelas.

Passou anos a fio viajando pela Via Láctea e além, sempre escrevendo a própria história. Teve uma leve obsessão por Marte, e provavelmente percorreu o planeta vermelho em todas as versões existentes naquela biblioteca. Depois andou pulando de conto em conto — distópicos, utópicos, histórias curtas o suficiente para tornar o desafio cada vez mais difícil. Já era uma jovem adulta quando decidiu encarar os clássicos.

Começou pela Odisseia, que se tornou quase um conto: Ulisses voltou para casa em menos de seis meses. Depois partiu para o Morro Branco, seduziu Victor e o convenceu a terminar sua obra; acabou madrinha de casamento dos Frankenstein. Gostou tanto do resultado que pulou dali para Notre-Dame e, claro, salvou Esmeralda — que depois disso tudo acabou não se casando com o corcunda, acredita? Em seguida, aproveitou a experiência na Europa para visitar a Espanha: Dom Quixote e Sancho Pança, esses sim, terminaram muito bem casados. 

Foi logo depois disso que ela encontrou a baleia.

Branca, enorme e, assim como ela, afeita a desconstruir narrativas.

Embarcou no Pequod mais de trinta vezes seguidas, em um único fim de semana de fúria e mar bravo. Assumiu o papel do capitão, de Ismael, dos marinheiros. A baleia venceu em todas elas. Tentou de novo na semana seguinte, e na outra, e uma mais.

Nada.

Com a ficha que sobrou girando sem parar entre os dedos, Ursula caminhou até a porta da biblioteca, suspirou e saiu. Sumiu por semanas. A bibliotecária, que nunca entendia o que aquela menina — depois garota e agora mulher — tanto gritava na Sala de Imersão, sempre com aquele mesmo livro, chegou a ficar preocupada. Conhecia Ursula desde pequena, era das poucas crianças nascidas durante o Grande Desenvolvimento Tecnológico que seguiam frequentando a biblioteca. Puxou a ficha de cadastro e ligou três vezes: nas duas primeiras, Ursula não atendeu; na terceira, voz de gripe e uma desculpa esfarrapada. Seguiu preocupada. Afinal, os livros em si já não davam mais muito trabalho, mas preferiu não insistir.

A três quadras dali, o sumiço de Ursula era apenas estratégico: resolveu ler. Como nos velhos tempos, sem simulação e sem ficha. Passou dias decorando cada vírgula do livro, mapeando cada oportunidade, cada momento que poderia aproveitar para dobrar a baleia. Duas semanas depois, teve um estalo: descobriu o único jeito de subverter aquela história. Ficou tão eufórica que cogitou sair para a biblioteca naquele instante, mas desistiu depois de ver a madrugada no relógio. Resolveu então dormir o máximo que pudesse para estar pronta no dia seguinte, o dia da vitória. Foram quase dez horas de sono, sem nenhum sonho, e, de manhã, um belo café e um banho refrescante. Vestiu a melhor roupa que tinha no armário, despediu-se do apartamento e partiu em direção ao lugar que melhor conhecia na vida. Caminhava com imponência, como se alguém houvesse estendido em seu caminho um tapete vermelho.

Entrou na biblioteca senhora de si, do lugar e da razão. Percebeu os olhos das poucas almas que ainda se encantavam com livros naquela cidade acompanhando seus passos com atenção, a bibliotecária oferecendo um cumprimento surpreso e discreto. Virou à direita no sétimo corredor, segunda estante, terceira prateleira de baixo para cima, e puxou a capa dura do livro mais manuseado de sua vida com a mão direita; tirou a esquerda da escuridão do bolso da calça e puxou a ficha, a última ficha, e a inseriu na abertura na lombada do livro. O menu holográfico saltou à sua frente, como sempre fazia, e, enquanto rolava para baixo a lista de personagens, Ursula caminhou sem nem olhar em direção à saleta.

Parou diante da porta, girou a maçaneta e, antes de mergulhar uma última vez nas águas do Atlântico rumo ao Cabo da Boa Esperança, reconsiderou se aquela era a escolha certa a fazer. Fitou o menu do livro por um instante, aquele animal gigantesco projetado girando no ar, e tocou de leve em “Moby Dick”. 

Era isso.

Ser a baleia era a única forma de vencer a baleia.

*

Notas Autorais: A ideia deste conto veio de um episódio da série Seinfeld, onde uma das personagens fala para a outra que não entende por que as pessoas são tão possessivas com livros que já leram, já que a história contada ali não vai mudar. Ao final da discussão, essa mesma pessoa ironiza: “vai ver que, na terceira vez que você lê, o Ahab e a Moby Dick se tornam grandes amigos”. Fiquei com isso na cabeça e tive a ideia de brincar com a possibilidade de reescrita dos cânones misturada a elementos de ficção científica, com a leitora se tornando ao mesmo tempo personagem e escritora da história.

Danilo tem pele morena, cabelos encaracolados e barba castanha. Está usando uma camisa estampada de mangas compridas, sentado à mesa. Atrás dele, uma parede colorida em tons de laranja e creme. De um lado de Danilo, há um globo geográfico e, do outro lado, uma samambaia.

Escrevo desde criança. Meu primeiro livro, na 2ª série, foi sobre a minha irmã: Luquinha Loquinha. Tenho ele até hoje embaixo da cama — obrigado, mãe. Na adolescência, produzi muitos zines, escrevi letras de música, e, na vida adulta, já professor — de geografia —, enveredei pelas crônicas e contos. Em 2021, lancei meu primeiro livro, Consigo, pela Editora Primata. São contos com histórias cotidianas, às vezes fantásticas, que se passam nas cidades imaginárias de Quarentena e Isolamento. Por último, mas não menos importante: acredito em um mundo onde caibam muitos mundos — abaixo e à esquerda está o coração!

Twitter: @kadjoman
Instagram: @kadjoman 
Scriv: scriv.com.br/kadjoman
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Site: daniloheitor.com.br

 

Deixados

Duda Vila Nova


 

O azinhavre proposital da moeda era a materialização de dois paradoxos: primeiro a necessidade de uma moeda em um país teoricamente socialista; depois, o despautério de usarem um processo de oxidação em liga de cobre para simbolizar força e prosperidade. Deixou-a rodar por entre os dedos e pagou mais uma bebida. Estava na sexta dose quando o tubo de imagens do bar começou a mostrar as notícias.

— Após esmagar uma velhinha com sua estranha casa voadora, a imigrante ilegal roubou o valioso sapato cravejado de rubis da vítima antes mesmo que a legítima herdeira tomasse conhecimento da morte de sua irmã.

Nem a estática nem o álcool eram o suficiente para que ele ignorasse o repórter.

— O sapato era de prata, e não de rubi… — As palavras embolavam na língua antes de sair, e os outros bêbados encostados no balcão o olhavam, mas não o compreendiam. Paleas achou melhor assim. Tomou mais uma dose e baixou a cabeça enquanto a parafernália tecnológica continuava:

— Protegida por entidade influente na política local, conseguiu fugir. Após o primeiro delito, a meliante e sua quadrilha ainda adentraram furtivamente a residência da referida herdeira, matando-a com requintes de crueldade utilizando algum tipo de solução ácida que derreteu a velhinha por completo. Tudo para roubar uma mísera vassoura de palha.

— Era só água!

Sem demora, o garçom autômato lhe trouxe uma garrafa de vidro contendo o líquido desejado e esperou o pagamento. Percebendo a confusão, Paleas devolveu a garrafa e esboçou um pedido de desculpas que não saiu, mas foi o suficiente.

— O mandante do hediondo crime, ao que tudo indica, é um conhecido contraventor e estelionatário que costuma pedir favores em troca de promessas milagrosas.

— Até que enfim concordamos com alguma coisa. — Levantou o copo num brinde solitário, mas uma mão peluda o impediu de beber.

— Sorte que ela não pode mais lhe ouvir, cabeça-oca. — A voz rouca e baixa não proferiu as palavras em tom de ameaça.

— Nunca vai ter coragem de contradizê-la, né, Leo? — Paleas torceu o próprio pulso e se livrou com facilidade. — Mesmo ela tendo fugido com aquele charlatão miserável, você ainda a defende… Covarde.

— Ela vai voltar por nós… — A descrença lhe atingiu antes da réplica do amigo, que chegou a abrir a boca, mas a fechou quando viu a represa dos olhos felinos transbordarem.

Leo tinha mais das moedas verdes que Paleas já havia gasto. Beberam juntos o resto da noite, relembrando aventuras passadas e se alienando de tudo ao redor. Quando se deram conta, os olhos do garçom, antes vermelhos, já estavam apagados, e os outros bêbados já tinham encontrado seu rumo.

— Merda… o toque de recolher! Vamos. — Leo tentou levantar o amigo, que já não falava, e cujos olhos entreabertos não tinham foco.

Cambalearam para fora do bar, quase arrebentando a porta automática no percurso. Seguiram trôpegos, tomando por guia a parede com pouca iluminação da rua, numa ilusão louca de que estavam invisíveis à patrulha.

— Parem aí, vocês dois.

A voz metalizada foi reconhecida por Leo, que virou para ter certeza. Paleas mal lembrava o próprio nome, quanto mais reconhecia uma voz que não ouvia havia anos, então apenas cambaleou para mais perto da parede e deslizou as costas até se sentar.

— De todos os patrulheiros metálicos…

— O toque de recolher foi há meia hora, Leo.

— Ora, vamos, Lata… Você tem que nos livrar dessa. Pelos velhos tempos.

— Os velhos tempos estão no passado. E o passado não volta.

— Você costumava nos defender, Lata. Eu me espelhava na coragem e na sua devoção a nós. Sua devoção a ela.

— E quem me defendeu quando eu fui capturado, Leo? Deixe de idiotices. Ela só nos usou para conseguir encontrar o caminho de volta pra casa. Ela e aquele desgraçado nos deixaram pra trás. E você… — Deu dois passos na direção de Leo, os olhos rubros cintilantes. — Você fugiu como um gato amedrontado carregando esse aí.

— Eu não tinha como te ajudar, Lata!

— Eu fui reprogramado. E foi doloroso, Leo. Aquela parte de mim pede para morrer todos os dias, mas minha nova programação me impede de tirar minha própria vida.

— O que vai fazer conosco, Lata?

O patrulheiro se virou e começou a caminhar na direção oposta.

— Não fiquem na rua após toque de recolher novamente. Posso não me lembrar de vocês da próxima vez.

A silhueta do patrulheiro já estava diminuta quando Leo arrumou coragem para gritar:

— Ela vai voltar, Lata! Ela vai…

Conseguiu ver os dois pequenos brilhos vermelhos se voltando para encará-lo e parou a frase no meio.

— Se ela voltar, é bom ficar bem longe de mim, pois vou pegar de volta o que ela tirou de mim.

Nunca mais se viram.

Ela nunca voltou.

*

Notas Autorais: Talvez não exista mesmo um lugar como nosso lar.  Mas o que acontece com os personagens secundários quando o sonho acaba?

Duda aparece em uma foto preto e branca, sorrindo, usando boné e camiseta escura. Aparenta ter pele clara e cabelos e barba castanhos.

Escritor, 40 anos. Já foi professor de dança, príncipe de festas de quinze anos, Sensei de Karate, técnico de impressora matricial, pesquisador de vigilância epidemiológica, atendente de lojinha de videogame e, guardando certa importância, mestre de RPG. Técnico judiciário há doze anos, publicou a coletânea É todo um processo, com contos e crônicas acerca de seu mundo de trabalho.

Twitter: @dudavilanova
Site: vnduda.wordpress.com
Instagram: @dudavnova

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No próximo episódio: casas e fantasmas. Não perca! 
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