Copy
View this email in your browser
Banner Faísca
Temporada 1 — Episódio 12 de 26

Décima segunda semana de Faísca. O trio harmonizado de hoje é tamanho família: uma FC com gostinho de casa, uma história sobre irmãs e outra sobre uma relação complicada. Como de costume, notas e pequenas biografias para que você possa acompanhar esse pessoal talentoso por aí.

Abaixo de cada faísca, uma ferramenta para você atribuir nota ao que leu. Ao final da temporada de seis meses, os textos mais bem avaliados serão cotados à tradução para o inglês — we also want to spark abroad! Pedimos encarecidamente que você avalie as faíscas recebidas — além de ajudar na classificação, a gente sabe que não está trovejando para o vazio. Boa tempestade de histórias pra você!

Atenção: É possível que, devido ao tamanho, a newsletter seja cortada ao meio pelo seu provedor. Caso isso aconteça, basta clicar na opção "exibir toda a mensagem" ou aqui em cima, em "ver essa mensagem no browser".
Ei, psiu: recebeu nossa newsletter através de um amigo? Que tal assinar e receber nossas faisquinhas direto no seu e-mail? Clica aqui! :) 

 

17 de abril

Carol Vidal

 

“Você tem certeza disso, capitã?”

Essa é a pergunta que mais me fizeram desde que me decidi. Não entendo a dificuldade das pessoas de entender. Nunca escondi meu objetivo ao entrar nessa missão arriscada. Dizem que se apegar ao que já foi não contribui com a causa, mas penso de forma contrária. E vou provar a todos que estão errados.

Já passei por muitas batalhas, e mais nada me assusta. Embarcar em uma missão de pesquisa no espaço-tempo foi só mais um desafio que a vida me proporcionou. Correr o risco de mudar toda a história se mexer sem querer em um evento passado? Ah, isso é fichinha. Quando se tem o que comer e o que vestir, qualquer tarefa pode ser cumprida.

Quando me alistei como voluntária, tudo o que recebi foi desconfiança. “O que essa pobre coitada quer aqui?”, diziam aos cochichos, achando que eu não ouvia. Mas eu sabia de cada palavra, de cada insulto proferido contra mim pela tripulação. Mas o tempo, esse poderoso e implacável mestre, sempre ensina suas lições. Aquela menina que chegou só com a roupa do corpo foi a única que não desistiu ao descobrir que a missão envolvia ficar longos anos afastada do orbe terrestre.

Quando não se tem pra onde voltar, qualquer paragem pode ser uma casa.

A família que um dia tive virou pó estelar quando o planeta revidou os milênios de exploração. Se estou viva, devo isso à minha querida mãe — que os astros a tenham. É meu dever honrar a coragem dela dando sentido à minha vida. Foi para isso que ela me escondeu naquele buraco. Gente pobre não tinha dinheiro para um bunker para situações como aquela. “Você sofreu demais, filha querida. Merece uma chance de se salvar”.

Encho-me de felicidade ao perceber que não estou passando pela vida em vão. Sinto que cumpro meu papel no mundo a cada fragmento recolhido no espaço para tentar achar uma cura para a destruição. Hoje não sou mais a menina que era no dia em que cheguei. Não no exterior. Por dentro, é outra história. Mas é aquela jovem sonhadora que me dá forças para seguir. Ela queria tantas coisas, tinha tantos planos. A maior tarefa que desempenho é não decepcioná-la.

Agora parto para a missão que mais esperei durante todos esses anos. Mesmo tendo as ferramentas para salvar minha mãe, tenho consciência de que ela não aprovaria tamanha desobediência às leis do universo. Mas olhar não faz mal algum.

Digito a data e o local exato para onde quero me deslocar. Dezessete de abril de 1991. Nunca esquecerei esse dia. Enquanto a nave percorre a imensidão espaço-temporal, me recordo das sensações. Já se passaram centenas de anos desde aquela manhã ensolarada; a vantagem de estar fora da ação da gravidade é que o envelhecimento segue um rumo mais lento. Mesmo assim, podem se passar outras centenas de anos e nunca esquecerei o brilho nos olhos da minha mãe.

Foi a primeira vez que a vi chorar sem ser de tristeza ou fome.

Quando a nave alcança o céu de João Pessoa, em modo invisível para os habitantes, desembarco e fico escondida atrás de uma árvore. Em poucos instantes acontecerá a cena que anseio reviver há muito tempo.

Preciso conter o ímpeto de correr e abraçar minha mãe quando ela passa por mim. Mas ela está bem acompanhada: meu eu de dez anos segura sua mão e a conduz pela calçada.

Aproximo-me um pouco mais para ouvir a conversa.

— Hoje é o dia mais feliz da minha vida, mamãe — falo com a voz infantil afetada pela empolgação.

— Pois esse é o segundo dia mais feliz da minha vida — responde minha mãe, o olhar distante.

— Ah é? E qual foi o primeiro?

— O dia em que você nasceu, é claro — ela diz, passando os braços pelos meus ombros e beijando o topo da minha cabeça.

Repito cada palavra em silêncio, apenas mexendo a boca. Aqueles minutos são meu tesouro mais precioso.

Sigo me escondendo entre as árvores para presenciar a continuação do passeio. O melhor ainda está por vir.

Eu e minha mãe viramos a esquina e o cenário inesquecível se desenha diante de nós. Trocamos olhares, e nenhuma palavra é necessária para expressar o que sentíamos. Caminhamos mais alguns metros e finalmente o sonho é realizado.

A areia morna sob nossos pés nos traz de volta à realidade. Estava mesmo acontecendo.

Tiramos nossos sapatos e saímos correndo com os braços para cima, sentindo a brisa tocar nosso corpo. Entramos na água de roupa e tudo. Não aguentávamos esperar mais nenhum segundo. Enfim, conhecíamos o mar.

Dou-me por satisfeita. Deixo o passado para trás e volto para a nave.

Com as forças renovadas, sei que posso aguentar o que vier pela frente. Ainda há muito trabalho a ser feito para tornar de novo a Terra um planeta de fato habitável. Mas sei que, quando a realidade apertar demais, terei esse pedacinho de felicidade para me lembrar o quão especial o planeta pode ser.

*

Notas Autorais: A ideia para esse conto veio depois de assistir a um show da cantora e compositora Flávia Wenceslau. No espetáculo, uma mistura de apresentação musical e bate-papo, Flávia dividiu com o público um pouco da sua trajetória e o que a inspirou a compor as músicas. Em um determinado momento, enquanto falava sobre as dificuldades de sua infância, Flávia contou sobre a alegria de ver o mar pela primeira vez, e foi essa história que me encantou e me inspirou a escrever “17 de abril”. A data, inclusive, é uma homenagem a Flávia: é o dia do aniversário dela.

 

Carol Vidal

Carol Vidal nasceu no Rio de Janeiro e mora em Salvador desde 2012. A paixão pelas palavras a fez estudar Jornalismo, porém seu coração bate mesmo é pela Literatura. Da universidade, carregou a escrita simples e objetiva, mas não menos profunda, e descobriu um prazer não só em produzir textos de ficção, mas em falar sobre o tema na newsletter Devaneios Criativos. Tem textos publicados na Revistas Mafagafo, Avessa e Fantástika 451, na coletânea Toda forma de amor (no prelo) e nas publicações do Medium Revista Subjetiva e Ministério do Textão, além de ter lançado uma zine independente com contos inspirados em músicas.

Medium: @carolvidal_
Twitter: @carolvidal_
Newsletter: tinyletter.com/carolvidal_


Que nota você daria para "17 de abril"? Seu voto é muito importante!


lowest 1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   highest
Sorry, voting is closed.

 
 

A última cartada

Frederico Zanini

 

Marilda e Liane eram irmãs havia mais de sessenta anos. Isso considerando apenas o tempo em que compartilharam o mesmo plano. Se considerarmos também o tempo desde que Liane havia morrido, já seriam quase sessenta e cinco anos. E elas continuavam jogando baralho todas as noites, como haviam prometido.

As duas já eram viúvas quando decidiram morar juntas. Eram melhores amigas quando crianças, óbvio que iriam se dar bem ao dividir uma casa na velhice. Isso era o que elas pensavam, e isso não chegou nem perto de acontecer. Os quarenta anos desde que a mais velha tinha saído de casa para se casar haviam feito com que as irmãs mudassem completamente. Os anos fizeram com que acumulassem bastante experiência, com a qual veio também muita rabugice.

Mas elas queriam tentar. Blood is thicker than water, foi o que elas aprenderam no cursinho de inglês comunitário destinado à terceira idade, que frequentavam todas as tardes de terça e quinta-feira. As manhãs de segunda e quarta-feira elas dedicavam ao Pilates, porque os exercícios eram um santo remédio para a hérnia lombar de Marilda. Começaram também a experimentar algumas coisas que gostavam de fazer juntas na infância, para resgatar a parceria. E assim surgiu a tradição de jogar baralho todas as noites.

Marilda passava o café e Liane preparava a mesa para a jogatina. Às vezes recebiam visitas dos amigos do centro de convivência da melhor idade, outras vezes jogavam sozinhas. Em uma das noites em que jogavam com os amigos, Marilda começou a acusar Liane de estar roubando. Dizia que a irmã não a respeitava, que sempre fazia isso e que nunca mais iria jogar baralho na vida!

Não poderia estar mais certa. Ao se levantar abruptamente da mesa, a mão erguida ao peito mostrou que algo não estava bem. Caiu sobre a mesa, espalhando o baralho. Liane tentou socorrer a irmã. Os amigos chamaram ajuda. Mas Marilda já estava morta quando a ambulância chegou.

*

No velório, Liane chorava debruçada no caixão da irmã, lembrando do pacto que haviam feito.

— Você prometeu que jogaríamos baralho todas as noites!

Depois do enterro, a família e os amigos não queriam deixá-la sozinha, mas a velha era cabeça-dura. Dizia que queria retornar para a casa que dividia com a irmã, pois só ali ficaria bem, só ali sentiria como se nada tivesse mudado.

Chegando em casa, encontrou a mesa posta, o café passado e sua irmã embaralhando as cartas.

— O que vamos jogar? — perguntou Liane.

— Buraco! — respondeu a irmã.

Jogaram até o raiar de um novo dia, e da mesma forma por mais cinco anos. Quando Liane tinha visitas, Marilda se sentava ao seu lado, e às vezes apontava a carta que a irmã deveria jogar. As brigas diminuíram, mas às vezes elas ainda se desentendiam, especialmente sobre quem iria lavar a louça.

Liane continuou fazendo o cursinho de inglês que as duas haviam começado juntas. Ao final do curso, fizeram uma quermesse, com uma grande rifa para arrecadar recursos para uma viagem ao exterior, em comemoração pela conclusão do curso. A comunidade abraçou os velhinhos, e eles conseguiram muito mais do que precisavam para a viagem.

Mas Marilda não queria – ou não podia – ir, e mais uma discussão começou entre as irmãs. O fantasma gritava que nem na morte a irmã a respeitava, que era uma ingrata, que ela havia desistido de aproveitar o pós-vida para honrar o pacto que fizeram, e que se ela soubesse nunca teria ficado, pois a irmã não merecia!

O rosto de Liane ficou roxo de raiva e, ao se levantar, a mão erguida ao peito mostrou que algo não estava bem. A xícara de café caiu da outra mão, despedaçando-se de encontro ao piso frio da cozinha. A irmã que até então era viva não conseguiu mais sustentar seu próprio peso, e caiu de forma estrondosa.

*

Liane acordou deitada sobre o caixão, no velório da irmã. Não havia resistido à noite inteira de lágrimas e adormecera. Vieram levá-la para comer alguma coisa e se recompor, pois o féretro seguiria em breve para o cemitério.

O enterro foi simples e rápido. Poucos presentes, alguns sobrinhos-netos e uns poucos amigos do clube. Liane lançou uma flor e um ás de copas sobre o caixão da irmã, e então os coveiros começaram a cobri-lo de terra.

— Você prometeu... — foram suas palavras de despedida.

*

Chegando em casa, encontrou a mesa posta, o café passado e as cartas distribuídas.

— Quem vai ficar com o morto? — alguém perguntou atrás de Liane, que apenas balançou a cabeça e sorriu.

*

Notas Autorais: Essa história nasceu na última Páscoa, quando fui passar o feriado na casa de minha mãe, no interior do estado. Liane é minha mãe, e Marilda é a mistura de duas tias. Elas não moram juntas, mas moram praticamente no mesmo quintal. Duas delas são viúvas. Sim, elas jogam baralho todas as noites e brigam muito por causa do jogo. Uma de minhas tias já prometeu nunca mais jogar baralho com minha mãe, de tanto que elas brigam, porque, segundo ela, iria acabar "perdendo a salvação".  Voltei do feriado com o primeiro parágrafo martelando na cabeça.

 

Frederico Zanini

Frederico Zanini ainda não sabe direito quem é, mas promete contar assim que descobrir. Sempre gostou de ler, desde que foi apresentado primeiro às histórias em quadrinhos e, depois, aos livros. Quando pequeno, numa época já tão tão distante, recebia revistinhas e livros como pagamento por fazer papel de pombo-correio entre os amigos de seus pais. Sempre quis escrever, porém nunca teve ânimo e, principalmente, nunca teve coragem. As histórias sempre existiram em sua cabeça, mas agora ele promete tentar segurá-las e prendê-las no papel! 

Facebook: @ofredericozanini
Twitter: @FredericoZanini


Que nota você daria para "A última cartada"? Seu voto é muito importante!


lowest 1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   highest
Sorry, voting is closed.

 
 

O chamado

Ana Cristina Rodrigues
 

 

No fim daquela estrada, havia um rio. Ele começava muito fino e silencioso, mas perto da foz se revelava como uma tempestade. Era ali, onde as águas mansas do rio encontravam a ferocidade das correntes marinhas, que vivia uma mulher. A idade avançada tingira seus cabelos de branco e travara seus joelhos, deixando a pele encarquilhada e a memória nevoenta.

Porém, todos os dias ela ia até o encontro das águas para encarar as espumas em turbilhão, quase ensurdecida depois de anos ouvindo aquele mesmo trovejar. Inclinava a cabeça e escutava com atenção, procurando por alguma coisa.

Em um anoitecer de outono, quando o trovejar acalmava e tornava-se apenas um rabujo alto, uma gaivota se aproximou.

— Senhora, senhora. Moro naqueles penhascos e todos os dias a vejo aqui, esperando por alguma coisa. O que tanto a senhora espera?

Uma pessoa sensata teria ignorado uma ave falante, mas os anos dão sabedoria para perceber que os absurdos escondem as verdades mais importantes.

— Espero a hora certa.

Por mais que perguntasse qual seria aquela hora, a gaivota não conseguiu outra resposta.

Mas conseguiu algo ainda melhor, pois a senhora deixou-lhe os restos do lanche que levava todos os dias. Meses e meses se passaram naquela toada, a gaivota sempre curiosa – e esfomeada – rodeando a senhora a fim de obter uma resposta ou um lanche, porém só conseguindo satisfazer uma das vontades. Até o dia em que o sol se apagou no meio da manhã.

A gaivota se assustou, mas o rosto impassível da senhora não se alterou em meio às rugas e tremores. Era a hora.

O oceano borbulhou, e uma criatura gigantesca emergiu, assustadora e sombria. Sua voz ressoou, alta e horrível, em uma gargalhada. No silêncio que seguiu, só se ouvia o coração acelerado da gaivota, até que a senhora soltou um suspiro profundo e começou a gritar:

— Cleiton Luiz, isso são horas?! Você prometeu que estaria em casa antes dessa conjunção astral!

— Desculpa, mãe, é que os Antigos... — ele tentou se justificar, balançando os tentáculos.

— Já falei que não quero você andando com esses sujeitinhos, tudo vagabundo arruaceiro! Vai tomar banho e tirar esse cheiro de peixe que eu vou preparar a janta!

A criatura murchou e respondeu baixinho: 

— Sim, mamãe...

— Mas não fique assim. Vou fazer seu prato preferido. Ensopado de gaivota.

*

Notas Autorais: Eu gosto de brincar com outras obras. Nada melhor do que criar todo um clima lovecraftiano misterioso e dar um final meio ridículo e macabro para ele. Não consegui resistir.

 

Ana Cristina Rodrigues

Ana Cristina Rodrigues é escritora, tradutora e editora de literatura fantástica, com mais de trinta contos publicados no Brasil e no exterior. Já traduziu grandes clássicos da fantasia e da ficção científica, além de ter prestado serviços para algumas das mais importantes editoras lusófonas. Seu primeiro romance, Atlas ageográfico de lugares imaginados, foi lançado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2019. 

Twitter: @anadefinisterra
Facebook: @anadefinisterra
Linkedin: @anacristinacrodrigues
Instagram: @anadefinisterra
Wattpad: @AnaRodrigues385


Que nota você daria para "O chamado"? Seu voto é muito importante!


lowest 1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   highest
Sorry, voting is closed.

 
Banner Faísca
No próximo episódio: paladinos, invocação e sangue urbano. Não perca! 
Copyright © 2019

You can update your preferences or unsubscribe from this list.

Email Marketing Powered by Mailchimp