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Temporada 1 — Episódio 24 de 26

Semana #24, quase na reta final! O trio de hoje tem temáticas diferentes, mas deixa um gosto parecido na boca: uma mistura de irreverência, melancolia e boas doses de reflexão. Como de costume, notas e pequenas biografias para que você possa acompanhar esse pessoal talentoso por aí.

Abaixo de cada faísca, uma ferramenta para você atribuir nota ao que leu. Ao final da temporada de seis meses, os textos mais bem avaliados serão cotados à tradução para o inglês — we also want to spark abroad! Pedimos encarecidamente que você avalie as faíscas recebidas — além de ajudar na classificação, a gente sabe que não está trovejando para o vazio. Boa tempestade de histórias pra você!

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O sorriso do jaguar

Ásbel Torres
 

 

Pela força do soco, o nariz do último devia ter entrado no rosto igual era pra fora. Quando ele caiu como os outros, Fernão imaginou tudo o que deveria confessar a Deus, à Virgem e a São Goyano. Ia dar trabalho. Embainhou a espada, arrancou a lança enterrada num tórax e a machadinha dum crânio. Ninguém conta que é preciso de mais força pra puxar uma arma do que para enfiar. Por isso, um cavaleiro errante anda bem equipado. Tirou o capacete felino do rosto suado e olhou longe. Ainda dava pra ver a poeira que o cavalo levantava. Fernão resmungou, montou no jegue e seguiu pelo caminho contrário.

O Castelo Jequitibá e a vila se erguiam no cerrado retorcido. Entrar de dia era diferente. Barracas se espalhavam pelas ruas, as esquinas cheiravam a peixe, caju e pequi, as paredes tinham folhagens murchas e, em algum lugar, um ipê florescia.

— Você esqueceu alguém. — A viscondessa o olhou com sarcasmo.

— Não estou mais atrás da outra recompensa. Só da sua. — Seu braço ardia pela cãibra.

— Até onde sei, os dois problemas tinham a mesma resposta. — Ela só falava naquele tom cínico.

— Essa é uma longa história.

— Tenho tempo, Cavaleiro Jaguar. Se depender do meu marido, tenho mais tempo do que gostaria. — O Visconde do Jequitibá já era velho e doente quando se casaram. Outras haviam recusado aquele pedido, mas ela era a filha de um nobre decadente e não podia sonhar com príncipes. Finalmente teria sorte e logo seria viúva de um visconde. Os anos passaram e seu marido continuou envelhecendo e acumulando doenças. O problema é que continuava vivo e, pelo jeito, continuaria assim por muito tempo. Mas isso não interessava a Fernão e ele começou a contar a história.

Desde que passara por ali buscando informações sobre o bando de Viriato, ele havia perambulado pelas terras ao redor, ao norte perto dos xingus e às margens do Araguaia. Custou até encontrar uma pista dos animais roubados. Seguia há alguns dias uma trilha, imaginando o covil no fim dela, quando deu de cara com uma menina que se assustou e correu. Era justificável. Não é sempre que se vê alguém com elmo de animal e capa amarela com rosetas negras de jaguaretê, a fera das feras. 

Quando ela sumiu, o cavaleiro deu de ombros e continuou até uma pedra passar zunindo. Ao se virar, encontrou a mãe da criança.

— Sai, capelobo. Volta pro teu buraco!

Tirou o capacete pra ela se aquietar, mas a braveza voltou quando Fernão pediu água. Água não se nega, ainda mais a um cavaleiro, mas nas últimas semanas ela valia mais que o pescoço.

— Nosso poço está ralo e pras vacas só sobrou lama. Faça o que faz alguém do seu tipo, mas minha água vai pras crianças.

Fernão olhou para a garotinha, depois para o caminho, e fez o que tinha de fazer. Há mais na cavalaria do que resgates e princesas. Passou os dias seguintes no poço e só parou com a água na cintura, pronta para aguentar a estiagem. 

Na manhã seguinte, decidiu pegar seu rumo para qualquer lugar atrás de uma nova missão. Chegou nas mulheres pilando carne seca com farinha e fez uma mesura.

— Não é capelobo. Capelobo não fala igual gente do pé macio. — A mãe sorriu como a viscondessa.

— O que eu falei de mais? Vivo na estrada e no mato.

— Seu pé tá no sertão, mas a cabeça não deixa a seda. — Ela olhou de lado, pensando se contava o que lhe pilava a cabeça. — Outro dia você comentou da sua caçada. Eles estão rio abaixo. É só seguir o leito seco. Se perguntarem se te contei, nego até a morte. Leva Josué. — Apontou o jumento. — Não faz cara de rico negando presente de pobre. Sem você, a gente morria. Vai, antes que eu pense melhor.

Quando os achou, contou quatro mais a princesa sequestrada, de cabelos fartos e a pele negra daqueles que dizimaram seus captores e ergueram fortalezas. Ao chegar perto, eles perceberam e fugiram. Josué era lento, mas cavalos se fatigam primeiro, e o jumento os alcançou.

— Acabou, cambada. Libertem a princesa e poupo vocês. Ou posso trocá-la pelo prêmio enquanto vocês viram almoço de urubu. — Fernão apeou já de espada na mão.

— Um cavaleiro andou tudo isso por um prêmio? — disse o baixinho aos outros. — Deve ser uma bela quantia.

— Não escutem ele. Me levem a Viriato — a princesa ordenou.

— E se nós mesmos a entregarmos? Batista, você ainda tem aquela corda?

— Deixem de besteira — a voz dela embargou.

Três foram pra cima do cavaleiro, enquanto o quarto prendia a princesa. Eram três, mas eram menos que Fernão. Barriga aberta, garganta riscada, machado na cabeça, lança arremessada. Fim.

— Estão te procurando pela caatinga inteira, mas descobri que vocês vieram para longe — disse, orgulhoso. — Ei, não me olhe assim. Sua família vai comemorar a sua volta.

— Para me presentear ao primeiro rei que aparecer? Quero isso. — Ela indicou o chão rachado. — Por isso me casei secretamente com Viriato.

Fernão olhou as mãos dela, amarradas, pensou no que o levara até ali e fez o que tinha de fazer.

— Continuem fugindo. Há um prêmio pela cabeça dele e outros virão tentar te salvar. — Quando a libertou, ela pulou, trombando no barriga furada que vinha de faca na mão. O Cavaleiro Jaguar se esquivou e deu seu melhor murro naquele nariz.

— Deixou ela ir? Eu peço chuva e você cospe no chão. — A viscondessa estava indignada.

— Expulsei eles. Foi o que me pediu.

— Ah, claro. Pedi para ajudar criminosos… Devia te prender, mas aceitarei os mortos como fiança.

— A senhora tem mais algum serviço?

— Acabe com a seca. Disseram que é bom em cavar poços.

— Preciso ir e minha estrada é longa. — Imitou o sorriso dela. — Mas prometo cuspir no caminho. — Estava começando a gostar disso.

 

Ásbel Torres

Ásbel Torres foi membro da seleção mato-grossense de bets de rua durante a virada do milênio. Hoje, é publicitário e escreve por diversão, embora concorde que haja meios menos sofríveis de se divertir. Leitor de realismo mágico, ficção especulativa, gibis e outros onirismos. Publica o que tem coragem em medium.com/@asbel e dá seus palpites sobre o universo em twitter.com/asbel.


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Rua dos Saguis, 2030, Aconchego, Consolação-SC

Iris Medeiros da Fonceca

 

A primeira gota d’água caiu logo acima da testa da pessoa ao centro daquela fotografia e ali permaneceu. Na correria da mudança, ninguém percebeu que ficava para trás em um álbum de fotos sortidas, mas tiveram de ser rápidos. Sabiam que era questão de minutos até que a Organização atacasse a casa. Era preciso agir, fugir da hostilidade, buscar calor em outro lugar onde ainda desse para viver. A Família que viveu ali, composta por Pai, Mãe e três Filhos — duas meninas e um menino —, decidiu que era hora de ir embora. Sumiram na calada da madrugada, sem levar nada, antes de ver a casa se degradar.

Conseguiram desaparecer antes de parte do telhado na suíte principal ceder sob uma das novas bombas de Efeito Moral e Colateral — bolas maciças de chumbo, do tamanho de bolas de futebol —, que agora se encontrava alojada em uma cratera, tal qual um ninho, ao pé da cama.

Aquele inverno estava sendo longo, úmido e anormalmente frio — dois anos inteiros de frio —, e a casa vazia passou a abrigar ratos, gambás, gatas em gestação, morcegos, passarinhos e outros animais de pequeno porte. Houve animais grandes também, como cachorros; mendigos buscando abrigo da chuva e do frio; casais de adolescentes desesperados para tirarem as roupas; outros casais buscando desesperados um pouco de paz e calor em uma casa já tão fria. Estes não duravam muito: sob o instaurado Regimento de Tolerância Zero, o segundo tipo de casal era logo encontrado por policiais à paisana escondidos no mato (animais mais perigosos esperando em emboscada). Eram covardemente torturados, mortos, desmembrados, carregados em um cruel desfile como se fosse carnaval, até serem desovados em lugares a céu aberto. Uma mensagem: é isso que acontece com pessoas como vocês.

O chão estava lotado de camisinhas podres, lixo e objetos espalhados que foram deixados ali por seus randômicos inquilinos.

A um canto do corredor, no segundo andar, jazia o pequeno álbum de capa mole tamanho 10x15, aberto e esquecido. Mostrava uma foto de cenário simples: um salão de festas abrigava todos em comemoração ao casamento do jovem casal. Ali estava a grande família da Noiva: o Papai e os doze irmãos e irmãs. Havia um grande banco, onde a Noiva se sentava em uma ponta e quatro irmãos se sentavam próximos; atrás e de pé, uma fileira encabeçada por Papai com os sete restantes, lado a lado, para que todos coubessem ali. A escolha de vestimentas, maquiagens e penteados era prova irrefutável quanto à temporalidade da festa — isto é, para quem ainda se ocupava em abrir um livro de história ou buscar imagens na internet sobre outros tempos: aquele casamento aconteceu em algum momento da década de 1980; mais precisamente, em 1988. Era uma fotografia que evocava tempos mais amistosos para uma família tão grande.

Ainda antes de a Família sumir, caiu em desuso chamar as pessoas por seus nomes próprios — esses haviam passado a ser destinados somente aos animais domésticos, para que não se colocasse ninguém da casa em perigo. No lugar, criaram-se apelidos que denotavam alguma característica forte — física, moral ou familiar —, de modo que podia ser a Baixinha, ou a Filha, o Amado, a Amiga, o Traidor, a Família da Moral e dos Bons Costumes, o Cidadão de Bem ou o Filhote de Fascista. À Família que fugiu a tempo não restavam dúvidas que fora por intermédio de um desses dois últimos que se viram em situação de risco, tornando-se alvo da Organização. Estava difícil saber os nomes e quem era quem: ultimamente, as paredes da casa vinham sendo preservadas de muitos da família que a foto estampava,. Precisavam de cautela para decidir em quem confiar. Eram tempos sombrios.

Lá fora, a chuva não dava trégua, e bem quando um camundongo entrava apressado pela porta da área de serviço lá embaixo, a segunda gota escorregou pela nova goteira no corredor do segundo andar e caiu sobre a sobrancelha de alguém mais acima na configuração da foto.

No momento em que a terceira gota caiu, uma das irmãs mais velhas da Noiva passou apressadamente um dedo sobre o nariz, impedindo que a água seguisse adiante.

Assim, cada um que o pingo de chuva tocava ia acordando, removendo, piscando, secando o rosto, olhando para cima ou pros lados, para ver aonde cairia o próximo.

A última gota de chuva caiu na Noiva, tal qual uma lágrima. Como uma lágrima foi rasgando o papel da foto, como se derretendo todo o material, abrindo espaço. Recriando um calor, levantando um brilho alaranjado e amarelo, quente, quente, quente, como se sentiu ali pela última vez, fazia já tanto tempo.

Em uma piscada conjunta do grupo, a casa moribunda girou e girou e girou, até assentar de novo.

Era 1988. Acontecia uma festa regada a churrasco e cerveja de um lindo casamento que teve sua cerimônia realizada em uma gruta.

Respirando aliviada, se livrando do peso de uma bigorna invisível sobre seu peito, a Noiva, Liliana, olhou em volta. E sorriu. Tinha dado certo até ali, mesmo tendo de esperar para ver como se daria a transição de fotos. Era o início da segunda chance para tanta coisa. Papai ainda estava vivo, seu Noivo Hélio estava lindo, a enorme família unida, as portas para a democracia tinham acabado de ser abertas. Teriam um futuro inteiro pela frente.

No entanto, não foi fácil. Mexer na linha do tempo por fotografia é coisa traiçoeira e pede seu preço. Liliana era acometida por enxaquecas e tinha pesadelos terríveis de não voltar a encontrar os filhos mais à frente em sua História; com uma, de fato não encontrou. E que dor! Sempre que pensava os pronomes pessoais e adjetivos em letra maiúscula, era envolta por uma melancolia incomum; quando chovia, sentia coceira logo abaixo dos cílios, no alto da maçã do rosto, exatamente onde caíra o pingo de chuva e o vento entrando pela janela sempre trazia consigo um arrepio, um eco, fuligem e uma sensação de sem-fim.

*

Notas Autorais: Casas em ruínas sempre foram um mistério para mim. Viajo bastante para Minas Gerais, de carro, com minha família e adoro deparar com essas casas e escrever sobre elas (ou o que imagino ter acontecido com elas). Esta ficção relâmpago nasceu no dia após as eleições presidenciais, e teve sua inspiração em três elementos diferentes: uma fotografia do casamento de meus pais, a eleição de Jair Bolsonaro e uma frase linda que meu pai disse naquele amargo café da manhã, no dia seguinte às eleições: “No mais é isso mesmo, temos que levantar e resistir com amor. Façamos como alguns animais no inverno: nos abracemos. A noite será longa”.

 

Iris Medeiros da Fonceca

Iris nasceu em Florianópolis, Santa Catarina, e estuda Letras Português na UFSC. Tem o coração um pouco no sul e um pouco em Minas. Sua paixão pela escrita deve vir do charmoso Fonceca do pai, grafado com “c” no sertão mineiro. A paixão pela leitura vem desde a barriga, quando ganhou o primeiro livro da mãe. Fã de fantasia, realismo mágico, folclore, suspense e terror, toma inspirações um pouco de cá, um pouco de lá, um pouco da vida, para escrever suas histórias.

Twitter: @iridaceas

 


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Cassandra V

Caio Henrique Amaro
 

 

Depois de ser a primeira a testar o microscópio mais potente do mundo, a última coisa que Cassandra queria era anunciar o sucesso do seu projeto aos colegas e à imprensa.

A imagem fora projetada nas telas à sua frente por segundos, o suficiente para ajeitar os óculos antes que cancelasse a operação. Por mais que parecesse, não era egoísmo; afinal, não queria ter visto o que viu. Havia palavra certa para o que ela sentia? Não era simplesmente o contrário de curiosidade, era algo maior, uma mistura de aversão com arrependimento. 

Os colegas de equipe, interessados, vieram correndo — afinal, algumas horas foram necessárias para a renderização do resultado —, mas foram cruelmente dispensados por Cassandra que, sem olhar para eles, disse que precisaria de tempo para uma nova tentativa. Procurou respirar, mas o ar não chegava. Milhões de reais, uma década de pesquisa, centenas de funcionários e um experimento que impactaria todo estudo da física. Em palestras, ela dizia que as pessoas valorizam demais o que está lá fora: espaço, sóis, planetas, luas. Simulou por tanto tempo aquele momento em sua cabeça que seu orgulho era grande demais para cogitar uma alucinação.

Lembrava-se da mulher responsável pela primeira foto de um buraco negro e ansiava pela própria reação quando chegasse a hora de mostrar a primeira foto do seu projeto ao mundo. Nossos olhos deviam focar no interior com a mesma fascinação com a qual admiramos uma noite estrelada, pensou, mas estrelas eram tudo que ela tinha na cabeça. Afinal, a imagem que figurava nos monitores minutos atrás continha várias delas.

Cassandra buscou expressar o que presenciou, juntar palavras, construir uma linha de pensamento, mensurar o abalo que sua descoberta causaria na física contemporânea, assumir que seu microscópio não só havia conseguido registrar estados simultâneos de sistemas físicos — uma superposição quântica —, como também a existência daqueles seres estelares. Organismos complexos com texturas e tecidos coexistindo com prótons e elétrons em “enormes” átomos. 

E por um momento ocorreu a Cassandra a hipótese de serem conscientes.

Astronautas estão preparados para isso. Além de treinamento, existem filmes, livros, séries, uma gama de representações possíveis do contato com uma vida inteligente lá fora. Físicos têm o que? Coceira. Era isso que ela tinha por começar a imaginar aquelas estrelas em sua pele. Começou a coçar os braços, fitou a sujeira acumulada entre suas unhas e imaginou a infinidade de criaturas que estariam ali, assim como no ar que respirava. Como coçar algo que está dentro e fora de você? Em todas as moléculas? Como era ter fobia de tudo? Precisava se certificar, renderizar novas imagens antes que perdesse a pele de seus antebraços. Enquanto esperava, supôs o que aconteceria se divulgasse a descoberta: cientistas assumiriam que suas equações estavam erradas, e enlouqueceriam na urgência de encontrar novas — contrariando, assim, pesquisas de vidas inteiras. 

Quando o computador mostrou no monitor a nova análise microscópica, teve a impressão de que os seres estavam olhando para ela. Fitou novamente os braços, seu corpo, a mesa à sua frente. Estariam todas aquelas moléculas infestadas de estrelas a encarando naquele momento também? Seres conscientes dentro da sua própria consciência, seu cérebro? Estariam eles influenciando seus próprios neurônios? Porque elas deixariam que Cassandra os descobrissem? Há quanto tempo poderiam estar manipulando toda a raça humana? 

Talvez o fascínio coletivo pelas estrelas não fosse injustificado, pensou, a adoração ao sol e sua representação com diversas pontas. Os idiomas as usavam para classificar o ápice em qualquer área — estrelas de Hollywood, as expressões “ver estrelas”, as religiões com suas estrelas guias e de Davi. E se olhar o universo lá fora sempre encantou a humanidade, por que os estelares de verdade queriam desviar nossa atenção e manter-se escondidos este tempo todo?

Seu braço já apresentava pontos de sangue de tanto se arranhar. Mais um resultado surgiu nos monitores. Elas apareciam agora amontoadas, aparentemente agitadas. Notou a fumaça pelo vidro que a separava da sala com o enorme microscópio. Um alarme tocou e os sensores começaram a espirrar água por todo o laboratório. Cassandra permaneceu imóvel, sentia que seu cérebro fervia tal qual o aparelho. Viu uma das gotas parar na lente de seus óculos, formada por diversas partículas de hidrogênio e oxigênio. Concentrou-se em observar seu interior e encontrou aqueles malditos seres ali, empurrando elétrons de um lado para o outro. As estrelas dentro de si estavam possibilitando que ela própria fosse agora seu microscópio? 

Dentro daquelas estrelas havia uma realidade, um planeta, várias cidades e pessoas. Sociedades que adoravam aquele formato de cinco pontas como uma nova religião, que acreditavam na vinda de um Filho da Estrela, uma macro-manifestação da vontade daqueles infinitos micro-seres. 

Viu novas guerras e também novos prédios que cresceram tanto que se tornaram pirâmides para poderem se sustentar em pé. Do espaço era possível ver as gigantescas pirâmides na superfície do planeta, que então deixou para trás seu formato esférico para assumir um novo. 

Aqueles eram seus questionamentos ou era o que estavam projetando em sua mente? Alguma vez sequer havia tido algum pensamento que podia chamar de seu? 

Cassandra jogou os óculos para longe e tudo escureceu, como quando se fecha o olho ao encarar o sol. Não era escuro, e a cor que prevalecia era o desconforto, uma cor que não fora feita para ser vista e que só surge quando seu corpo queima. 

*

Os jornais noticiaram o desastre que foi a quinta tentativa de construção de um microscópio capaz de chegar a uma escala menor de um átomo. Felizmente todos os envolvidos se salvaram do grande incêndio, menos o grandioso microscópio Cassandra V, segundo o relato de Wagner Oliveira, responsável pelo projeto desde seu início. O governo parou de destinar verbas a projetos deste gênero — principalmente anos depois, quando se encontrou indícios de planetas com água em outros sóis. Todas as potências mundiais, então, decidiram concentrar seus recursos em sua eterna busca inconsciente por vida consciente ao redor de novas estrelas...

*

Notas Autorais: A ideia base para essa ficção relâmpago foi imaginar que os seres cósmicos lovecraftianos poderiam ser minúsculos e conviverem conosco há anos. No início, o objetivo era contar uma história na qual eles viveriam principalmente na tintas de canetas, mas isso mudou quando soube de uma notícia de 2015 sobre a criação do microscópio mais potente do mundo no Japão e percebi como poderia juntar as duas ideias. Uma curiosidade sobre o texto é que o final ambíguo não era algo planejado; ele surgiu durante a escrita e hoje não consigo imaginar o conto sem isso.

 

Caio Henrique Amaro

Caio Henrique Amaro é escritor, desenhista, jurista e desenvolvedor web. Mora em Joinville (SC) onde conheceu os amigos que juntos integram o Marca Página, um clube do livro em formato de podcast desde 2016. Fã incondicional de Homem-Aranha, Demolidor e Hellboy, Caio passa os dias tentando encontrar trilhas sonoras que sejam perfeitas para cada atividade. No último ano da faculdade de direito, resolveu começar a apostar em suas histórias. Em 2017, estreou como roteirista na coletânea Demônios da Goétia em quadrinhos pela editora Draco, e em 2018 participou da antologia de contos Mitografias Vol. 2 - Mitos de Origem. Entre outros projetos, esse ano fez parte da HQ Sangue no olho, lançada pela Editora Draco na CCXP19

Podcast: marcapagina.net
Medium: @caiohamaro
Twitter: @caiohamaro
Instagram: @caiohamaro


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