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Newsletter Parent in Science
n.6 - Junho 2021


 

O que você vai encontrar nesta edição:

  1. Parentalidade LGBTQIAP+ na Academia 
    • Parent in Science Entrevista:
      • Janaína Dutra - INCA
      • Sendy Melissa Santos do Nascimento -  UFAL
  2. Levantamento da Ciência LGBTQIAP+ Brasileira
  3. Linguagem Inclusiva
  4. Coletivos LGBTQIAP+
  5. Dia Mundial dos Oceanos
    • Parent in Science Entrevista: Prof. Catarina Marcolin e os desafios em conciliar a maternidade com a carreira científica na área de ciências do mar
Parentalidade LGBTQIAP+ na Academia
                                 
Em prol do reconhecimento, respeito e celebração de todas as maternidades e paternidades nesta edição, iremos dar visibilidade para um assunto ainda pouco discutido: a parentalidade LGBTQIAP+. São muitas as intersecções sobre o tema a partir dos diferentes marcadores sociais que atravessam corpos e vivências, como gênero, raça, classe, território, orientação sexual, entre outros. Para ampliar o debate sobre as distintas vivências no universo LGBTQIAP+, entrevistamos duas mulheres mães bissexuais que vivenciaram a maternidade de formas distintas. Esperamos contribuir para o debate sobre a importância de políticas que combatam o preconceito e promovam equidade de gênero, levando em conta todas as formas de existir e de vivenciar a parentalidade.


Janaína é pesquisadora da área de Física Médica, atua em medicina nuclear pelo INCA. Mãe de dois filhos, de 4 e 6 anos, se identifica como bissexual.  Os cuidados de seus filhos são organizados por meio de guarda compartilhada com o pai deles. Ela passou a se identificar como bissexual após a maternidade, entretanto não é muito aberta sobre o tema no ambiente acadêmico onde já foi vítima de discursos violentos mascarados de piada.   Não se sente encorajada a se abrir sobre sua orientação por conta das experiências de outras mulheres . Ela observa também muita hostilidade não intencionais quando pessoas insinuam que ela deve proteger seus filhos e não ser tão aberta sobre seu relacionamento bissexual na presença deles. Ela se opõe fortemente a essa ideia: “Que tipo de mãe seria eu se eu dissesse aos meus filhos que o que estou fazendo é errado? Vivencio  minha orientação de forma plena e aberta para meus filhos para que eles possam fazer isso da vida deles também.”  Por outro lado, ela busca fortalece-los para lidar com os questionamentos a que já são submetidos relativos à orientação sexual da mãe. Entende que poder se abrir é um privilégio e ensina seus filhos que não há nada de errado em viver amando quem você ama. Para inspirar outras mulheres, Janaína deseja “que as pessoas possam seguir seus desejos para fazer o que as deixem felizes e que as completem enquanto indivíduos.”

                                                                            

Pesquisadora da área de Física, vinculada à UFAL, mãe solo de uma menina de 9 anos, Sendy se identifica como bissexual. A descoberta da bissexualidade se deu após a maternidade. Por um contexto desfavorável à aceitação de identidades de gênero diferentes da heterossexual, a pesquisadora relatou ter receio de se abrir em relação à sua orientação sexual, em especial no ambiente acadêmico onde já foi vítima de comentários maldosos, em tom de brincadeira.  Por conta deste contexto também, mesmo não se considerando especialmente tímida, ela passou a se comportar como uma pessoa tímida frente ao machismo e conservadorismo sob o qual estava inserida. Ela nos confidenciou que com exceção de sua filha, nenhum outro membro da família sabe sobre sua bissexualidade. Segundo ela, seus pais nunca abordaram o assunto com ela em sua adolescência por não terem conhecimento sobre o tema, o que dificultou  seu processo de autoconhecimento. “Tenho muito medo por mim e por meus amigos, da hostilidade que nossa sociedade oferece.” Para o futuro de sua filha, Sendy vislumbra uma realidade diferente da que teve, com muito mais acolhimento. Por outro lado, tem consciência de que sua filha poderá sofrer com hostilização daqueles que não sabem lidar com a orientação sexual da mãe.  “Nos cansamos e nos machucamos de ter de nos defender o tempo todo. Ensino à minha filha que ela precisa cuidar de si. Eu mesma aprendi depois de um tempo a brigar menos, a me desgastar menos e a cuidar mais de mim.” Ela diz preparar a filha para ambientes de pouca aceitação onde ela precisará estar pronta para defender suas ideias e atenta a modo de se expressar. Para uma academia mais inclusiva, Sendy recomenda iniciativas que promovam uma maior conscientização e celebração das comunidades LGBTQIAP+ locais. No tocante à maternidade, ela sugere que benefícios tenham caráter parental, e não relativos a mães somente, assim, incluindo todos os gêneros de forma mais ampla. Por fim, ela acredita que uma maior representatividade em posições de decisão seria benéfico a todos.

                                                                          
Levantamento da Ciência LGBTQIAP+ Brasileira

Em busca de aprofundar o debate sobre a importância da diversidade na ciência, as pesquisadoras Gabrielle WeberRebeca Bacani , do Mamutes na Ciência, pesquisadora Cristal Villalba juntamente com nossa coordenadora  do Parent in Science Fernanda Staniscuaski, criaram o projeto Ciência LGBT e elaboraram um questionário para fazer um levantamento sobre a comunidade LGBTQIAP+ na Academia e na Ciência brasileira. A proposta é conhecer melhor a comunidade LGBTQIAP+, seus anseios e dificuldades enfrentadas na academia. 

                                   
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LINGUAGEM INCLUSIVA

O que é? Como usar?
Por Lígia Mara Boin Menossi de Araujo e Luciana Carmona Garcia

A comunicação inclusiva é uma realidade da qual não podemos nos esquivar, tampouco nos isentar. Ela surge como um movimento político no século XXI que busca incluir, via linguagem, diversos sujeitos excluídos socialmente. Mas engana-se quem imagina que esse movimento de inclusão é muito recente: desde o fim do século XX, já havia movimentos que prezavam por uma linguagem que incluísse o próprio gênero feminino. As pessoas nascidas no final da década de 1970 podem se lembrar de pronunciamentos do ex-presidente José Sarney, que saudava a população com “brasileiros e brasileiras”. Mas por que usar a flexão no feminino se o substantivo masculino “brasileiros”, segundo a gramática, já contempla os dois gêneros?

Bom, temos aqui uma questão que, para além da gramática, se constrói socialmente: sabemos que nossa sociedade ainda carrega uma historicidade machista que estrutura as relações hierárquicas, o que leva à discussão de que, muitas vezes, o uso do masculino genérico pressupõe a soberania do homem sobre outros gêneros. Se há homens e mulheres numa sala em que se saúda com referência a “todos”, não importa que haja mulheres nesse espaço, nem quem sejam elas. Isso ratifica o machismo estrutural, que vê como menos importante a participação social da mulher.

Nesse sentido, a linguagem inclusiva e a linguagem neutra, distintas em suas propostas, mas complementares para a construção de uma comunicação inclusiva, contribuem para lançar luz a uma temática importante: o respeito à diversidade. Uma luta que busca mais equidade social.

Já a linguagem inclusiva se apresenta como uma alternativa não sexista, utilizando-se da própria estrutura da Língua Portuguesa. Também é possível encontrar manuais disponíveis facilmente na internet, por mecanismos de busca que utilizamos rotineiramente.

Como exemplos, temos:

                                    

Como parte da engrenagem social, cabe a nós observar se nossa linguagem é inclusiva ou excludente, mesmo que não seja proposital, e que, a partir do momento em que passamos a compreender que a linguagem expressa o modo como, historicamente, determinadas vidas importam menos que outras, transformemos nossa própria relação com o outro, que começa na comunicação.

Confira abaixo indicações de manuais de comunicação inclusiva e lgbtqiap+:

Manual de Comunicação LGBTI+
Coletivos LGBTQIAP+
Nesta edição da nossa newsletter, oferecemos uma breve apresentação de alguns coletivos e perfis LGBTQIAP+, que tem se tornado cada vez mais presentes dentro e fora do ambiente universitário, com intuito de dar visibilidade para as pautas dessa população, como promover apoio mútuo entre as diversas identidades de gênero no contexto acadêmico.
 
No âmbito da USP, identificamos o Coletivo LGBT Psico USP, que foi criado para acolher, discutir e refletir sobre as pautas da população LGBTQIAP+. Uma pauta de destaque desse coletivo diz respeito a responsabilidade formativa dos futuros psicólogos com relação a membros da comunidade. Já o Coletivo Claúdia Wonder, da Escola de Engenharia de Lorena (EEL-USP), foi criado visando à promoção, defesa e garantia dos direitos da comunidade LGBTQIAP+, no âmbito de uma comunidade acadêmica que, segundo informações do coletivo, mantém muitos estigmas que precisam ser descontruídos.
 
O Coletivo Trans Gisberta Salce foi instituído por estudantes trans da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de diferentes identificações de gênero. Uma das primeiras reivindicações desse movimento foi referente à aceitação do nome social na UFRJ, mas as lutas têm se expandido para outros temas como conscientização de servidores, assim como atendimento psicológico para estudantes trans.
 
O Núcleo TransUnifesp é um grupo extensionista formado por pessoas transgênero e cisgênero, no âmbito da Unifesp, que tem como objetivo contribuir com a busca e prática das melhores evidências acadêmicas dos cuidados em saúde e promoção de cidadania para as populações trans e intersexo. O ambulatório do referido núcleo é oferecido assistência multiprofissional e transdisciplinar de saúde à população trans.
 
Diversos outros perfis no Instagram mantêm discussões sobre a relação entre ciência e a comunidade  LGBTQIAP+,. O perfil @cienciaforadoarmario discute o meio científico a partir de sua vivência em um ambiente majoritariamente dominado por homens brancos, cisgênero e heterossexuais.  O perfil @lbstem, por sua vez, esta voltado para Mulheres LBT nas Ciências, Tecnologias, Engenharia e Matemática.  O grupo promove programa de atendimento psicológico, encontros e oportunidades diversas na área. 

Você conhece os coletivos LGBTQIAP+ em sua instituição? Aqui apresentamos alguns desses coletivos que discutem esta agenda. Confira abaixo:
Quer saber mais? Confira páginas do Instagram que abordam o tema LGBTQIAP+ na ciência e na academia.
Dia Mundial dos Oceanos
Em comemoração ao Dia mundial dos oceanos, celebrado em 8 de junho, conversamos com a Prof. Catarina Marcolin sobre os desafios em conciliar a maternidade com a carreira científica na área de ciências do mar. Catarina é doutora em oceanografia biológica, professora da Universidade Federal do Sul da Bahia e mãe de uma menina de 5 anos, além de ser editora-chefe no blog "Bate Papo com Netuno", que discute assuntos relacionados às ciências do mar e representatividade feminina na ciência. 


                                            

PiS: É muito comum que as pesquisas nas ciências do mar envolvam um grande número de saídas de campo para coleta de dados. Devido a problemas como situações de assédio (conforme explicitado nesta reportagem do Bate Papo com Netuno) e dificuldade em conciliar as saídas e o cuidado com os filhos, esses estudos em campo podem representar um desafio para muitas mulheres. Catarina, como você sente a influência destas questões na sua trajetória acadêmica?
Catarina : Eu sempre quis ter filhos, desde muito jovem já sabia que isso era algo importante pra mim. Mas ao mesmo tempo eu não queria ter filhos sem estabilidade financeira. Então quando me decidi por uma carreira nas ciências eu resolvi esperar passar em um concurso para começar a tentar ter filhos. As minhas oportunidades de embarque aconteceram com mais frequência quando eu ainda era doutoranda ou pós doc. Então não tive que me preocupar com isso . Mas logo depois que voltei de licença maternidade perdi a chance de ir para Abrolhos por que não tive coragem de me afastar da minha filha. São escolhas que os homens não precisam fazer, ou mesmo se preocupar, geralmente.

PiS: Você acredita que o papel de cuidado com os filhos, tradicionalmente atribuído à mulher, pode impactar negativamente no desenvolvimento da carreira de mulheres nas ciências do mar?
Catarina: Acredito que ter filhos pode impactar sim a carreira acadêmica das mulheres, em maior ou menor grau de acordo com o apoio que essa mulher tem para os cuidados com a criança. Embora eu more longe da familia e tenha uma marido participativo nos cuidados com minha filha e tivemos apoio de babá até antes da pandemia. Ainda assim nos dois anos subsequentes ao nascimento da minha filha eu não consegui publicar nada.

PiS: Que estratégias você acredita serem possíveis de aplicar na área de ciências do mar que possam minimizar esses impactos?
Catarina : Não apenas nas ciências do mar, mas em qualquer área acadêmica. Precisamos de apoio institucional. Creches são um excelente começo, mas não apenas isso. Precisamos de compreensão quando nos atrasamos para uma reunião porque tivemos que preparar o café da manhã da criança, precisamos de compreensão para não assumir atividades de gestão nos primeiros dois anos da maternidade (pelo menos). Precisamos que as análises de desempenho para progressão, estágio  probatório, editais de fomento, etc levem em consideração a queda de produtividade nos anos iniciais maternidade.


Link para reportagem Bate Papo com Netuno aqui.
 

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A Newsletter Parent in Science é o boletim eletrônico mensal do movimento Parent in Science, com novidades sobre políticas, ações, pesquisas recentes, oportunidades e eventos que envolvam as questões da maternidade na ciência.
Redatoras: Alessandra Brandão, Beatriz Muller, Camila Infanger, Gabriela Reznik, Milena Freire e Rossana Soletti.
Editora: Camila Infanger.
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